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O “primeiro Photoshop” e o futuro da imagem

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KNOL

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Neste momento, é difícil imaginar-se a Fotografia e o Design sem o recurso a Photoshop.

Desde ser usado para pequenas melhorias à captação de imagem ou para criar representações visuais impossíveis, fora da nossa imaginação, a sua importância nestas áreas tem vindo a aumentar. No entanto, quando a sua utilização é excessiva, levanta questões éticas cada vez mais polémicas, sendo incerto de como esta ligação continuará a evoluir.

No contexto da visita da LOBA à Casa-Museu Regional de Oliveira de Azeméis, sendo eu designer,  a minha escolha para peça a trabalhar foi quase automática. A “Prensa de Assetinar” foi-nos apresentada como tendo sido algo como “um primeiro photoshop”. Na altura, as fotografias só podiam ser tiradas a preto e branco. Assim, com este dispositivo, o fotógrafo poderia então dar camadas de cor em cima da fotografia, para destacar alguns elementos.

Esta ideia de “tratamento de imagem” era a forma possível de, na altura, ultrapassar as limitações técnicas existentes. Ao aplicar alguma cor, a fotografia ficava mais “apelativa” e ganhava até um toque de “realismo” e “emoção”, impossível de outra forma. Hoje em dia, com os avanços da fotografia, a utilização de algo como a Prensa de Assetinar já não faz sentido e o que conhecemos como “tratamento de imagem” é algo bastante mais avançado e poderoso.

Neste momento, consegue-se “melhorar a realidade” de uma forma quase sem limites. A maneira como conseguimos manipular uma imagem é de tal forma grande, que os resultados podem ser algo questionáveis, quando não há um entendimento do que é eticamente aceitável ou não.

Por exemplo, no tratamento de uma foto para uma capa de revista. Começamos com simples melhorias de cor e contraste. Depois, minimizamos rugas ou pequenas imperfeições físicas. A foto fica melhor. E então, rapidamente caímos na tentação de ir mais além, esticando um bocadinho aqui, tirando uns quilinhos acolá. No final, atingimos uma representação irrealista do ideal de beleza.

Numa altura em que o culto da imagem é tão importante, esta capacidade é um poder que exige grande responsabilidade e ética por parte de quem o possui. É fácil ceder-se à criação do que é “bonito” e “desejado”, perdendo o rumo do que é responsável. O resultado deste trabalho são representações de “perfeição” irrealistas, que acabam por criar falsas expetativas a quem o vê. Por comparação, levantam questões e alimentam complexos nos observadores, que acabam por ter dificuldades em aceitar e valorizar as pequenas “imperfeições” que cada um tem. Fazem das diferenças problemas, e criam a necessidade de seguir estereótipos, muitas vezes desajustados.

Cada vez mais se vão levantando vozes de protesto em relação ao excesso de tratamento de imagem. No entanto, embora já se sintam alguns efeitos da sua intervenção, ainda é incerto se conseguirão generalizar uma mudança cultural que leve a uma utilização mais honesta destes recursos. Numa altura em que ainda se valoriza muito a aparência, concentrarmo-nos em reconhecer a “realidade” tal como ela é, pode ainda levar algum tempo.

Mas na verdade, cabe a todos nós participar nessa mudança de mentalidades. O nosso “consumo” revela aquilo que queremos ver e que, por consequência será produzido. Se mostrarmos que desejamos honestidade e realidade, em vez de ilusões de beleza, certamente que o tratamento de imagem irá evoluir para onde deveria. Para criar mundos de fantasia, ou simplesmente enaltecer o que a realidade tem de bom. Tal como a Prensa de Assetinar, trazer “realismo à realidade”, revelando detalhes e criando assim uma relação mais emocional mas verdadeira, entre o observador e a imagem.

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